Como usar múltiplos LLMs para sair do “escopo nebuloso” e chegar a um baseline claro de projeto

Tempo de leitura: 8 minutos

Definir escopo é, muitas vezes, o momento mais sensível de um projeto.
É quando alguém faz a pergunta difícil:

“Afinal, o que exatamente esse projeto vai entregar — e o que ele não vai entregar?”

Na prática, é comum acontecer:

  • documentos iniciais soltos (um e-mail, um slide, um relato verbal);
  • visões diferentes entre patrocinadores, usuários e times técnicos;
  • uma tendência a “abraçar o mundo” e colocar tudo dentro do projeto.

É aqui que modelos de linguagem (LLMs) podem ajudar — não para decidir o escopo sozinhos, mas para acelerar a construção de um baseline inicial bem estruturado, que depois será negociado e validado pelas pessoas envolvidas.

E dá para ir além de “perguntar qualquer coisa” para um único modelo.
Usando múltiplos LLMs em um fluxo organizado, você pode simular algo parecido com uma mesa de especialistas: cada modelo enxerga o problema por um ângulo diferente, e você usa um processo para juntar, limpar e melhorar essas contribuições.


Por que usar IA logo na definição de escopo?

Logo no começo do projeto, você costuma ter:

  • pouca informação estruturada,
  • muitas opiniões difusas,
  • pressão por prazo e orçamento.

Usar LLMs nesse momento ajuda a:

  1. Evitar a página em branco
    Em vez de começar do zero, você parte de uma primeira proposta de escopo já organizada em tópicos.
  2. Ampliar o olhar sobre o projeto
    Vários modelos em paralelo lembram de entregáveis, riscos e limites que talvez não tivessem aparecido numa primeira reunião.
  3. Estruturar melhor as discussões
    Você entra no workshop com um rascunho de escopo, e a conversa passa a ser:
    “O que aqui faz sentido?” em vez de “Por onde começamos?”.

A ideia central: um pipeline em 3 passos (Generate → Unify → Improve)

Em vez de usar um único modelo de forma solta, você pode montar um fluxo simples, em três etapas, para trabalhar escopo de projeto:

  1. Generate – gerar ideias de escopo
  2. Unify – consolidar e organizar
  3. Improve – melhorar a qualidade dos itens

E isso pode rodar em 1 ou 2 rodadas, com controle de crescimento, para não transformar o escopo em uma lista infinita.


Passo 1 – Preparar o contexto do projeto

Tudo começa com um contexto mínimo bem montado.
Você pode juntar:

  • objetivo geral do projeto;
  • problema/oportunidade que se quer resolver;
  • principais entregas esperadas (se já existirem);
  • restrições (prazo, orçamento, tecnologia, legislação);
  • premissas (o que você está assumindo como verdade);
  • principais stakeholders.

Esse “pacote” vira o insumo para os modelos.

👉 Dica prática: tente escrever esse contexto em linguagem clara, direta, como se estivesse explicando o projeto para alguém de fora.


Passo 2 – Generate: deixar os modelos sugerirem o escopo

Aqui entra o “multi-LLM”.
Você pede para dois ou três modelos diferentes responderem, de forma independente, algo como:

“Com base nesse contexto, liste até 20 entregáveis de alto nível deste projeto.
Para cada item, inclua:

  • uma breve descrição,
  • um critério simples de aceitação (como saber que está pronto).
    Não descreva atividades, mas sim resultados entregues.”

Cada modelo vai devolver uma lista de entregáveis e, muitas vezes:

  • alguns itens vão se repetir com nomes diferentes;
  • alguns serão muito parecidos;
  • outros serão exclusivos de um modelo (e talvez muito bons).

Você não quer usar tudo “no automático” — a graça está na diversidade, para depois consolidar.


Passo 3 – Controlar o tamanho (para o escopo não explodir)

É aqui que o processo faz diferença.

Antes de rodar os prompts, você define um tamanho alvo:

  • por exemplo: “Quero uns 15–25 entregáveis de alto nível”.

Se cada modelo gera até 20 itens, e você usa 3 modelos, pode acabar com 50+ linhas.
Então você já planeja que, depois da consolidação, querem sobrar só aqueles que realmente fazem sentido para o baseline inicial.

Essa ideia de limitar quantidade por rodada ajuda a:

  • evitar escopo inflado demais;
  • forçar priorização e agrupamento;
  • manter o artefato utilizável.

Passo 4 – Unify: consolidar entregáveis e limpar o escopo

Agora você junta todas as listas em um só lugar (planilha, documento, ferramenta de IA) e coloca um prompt de consolidação, por exemplo:

“Você receberá várias listas de entregáveis de projeto.
Sua tarefa é:

  • agrupar entregáveis equivalentes,
  • eliminar duplicatas,
  • propor um único nome claro para cada grupo,
  • remover itens que sejam claramente atividades e não entregas,
  • devolver no máximo 25 itens, priorizando relevância para os objetivos do projeto.”

O resultado tende a ser uma lista bem mais enxuta, organizada e consistente.

Você já pode começar a reconhecer:

  • entregáveis que formam os principais blocos da WBS;
  • entregáveis redundantes (que podem ser fundidos);
  • itens que parecem deslocados do objetivo do projeto.

Passo 5 – Improve: transformar rascunho em baseline inicial

Depois da consolidação, entra o terceiro tipo de prompt, focado em qualidade:

“Pegue esta lista de entregáveis e:

  • reescreva cada item em formato claro e objetivo,
  • garanta que descreva um resultado entregue, não uma atividade,
  • inclua 1 critério de aceitação mensurável,
  • indique se o item é ‘dentro do escopo’ ou ‘fora do escopo’ (quando ficar claro que é exclusão).”

Aqui você pode pedir também:

  • identificação de premissas associadas (por exemplo, “desde que a área X forneça tais dados”);
  • sugestão de restrições importantes (normas técnicas, prazos legais, etc.);
  • proposta de uma pequena seção de “fora do escopo” para deixar explícito o que este projeto não fará.

Ao final, você terá algo muito próximo de:

  • um Project Scope Statement inicial,
  • ou uma WBS nível 1–2 em texto,
    pronto para ir para um quadro, uma reunião, um documento formal.

Quantas rodadas são necessárias?

Na maioria dos casos, uma rodada bem feita (Generate → Unify → Improve) já gera um material muito melhor do que começar do zero.

Uma segunda rodada pode ser usada para:

  • aprofundar algum bloco específico do escopo (ex.: “detalhar só o escopo de treinamento”);
  • integrar feedback de stakeholders:
    “Com base nos comentários da reunião, ajuste e refine os entregáveis a seguir…”

Rodadas adicionais só costumam valer a pena se:

  • o projeto é muito complexo ou regulado;
  • ou se você está usando esse processo como base para um estudo mais formal.

Papel das pessoas nesse processo (importantíssimo!)

Mesmo com toda a inteligência dos modelos, o papel humano continua central:

  • Patrocinador e equipe avaliam se o escopo proposto faz sentido estratégico.
  • Especialistas do domínio ajustam detalhes técnicos, limites e dependências.
  • PMO ou gerente de projeto garante que o escopo esteja coerente com prazo, custo e riscos.

A IA entra como:

  • acelerador,
  • gerador de alternativas,
  • ferramenta de brainstorming estruturado.

Não como substituto da decisão.


Um mini-exemplo para visualizar

Suponha um projeto de implantação de uma nova plataforma de atendimento ao cliente.

Depois de seguir esse fluxo, seu baseline inicial de escopo poderia ter entregáveis como:

  • Plataforma de atendimento configurada e integrada aos sistemas legados
    • Critério de aceitação: principais fluxos (abertura de chamado, consulta de status, histórico do cliente) funcionando em ambiente de produção.
  • Base de conhecimento inicial publicada
    • Critério de aceitação: pelo menos 100 artigos revisados e aprovados, cobrindo os 20 tipos de chamados mais frequentes.
  • Equipe treinada na nova plataforma
    • Critério de aceitação: 90% dos atendentes aprovados em avaliação prática simulada.
  • Indicadores de atendimento configurados e disponíveis em dashboards
    • Critério de aceitação: dashboards com indicadores de SLA, NPS e tempo médio de atendimento atualizados diariamente.

E, na parte de fora do escopo, algo como:

  • Migração completa de todos os sistemas legados para uma nova arquitetura;
  • Redesenho de toda a jornada do cliente em canais físicos.

Isso já dá um mapa muito mais claro para planejar prazo, custos e riscos.


Riscos e cuidados ao usar IA para escopo

Alguns pontos de atenção:

  • Escopo genérico demais: modelos podem sugerir entregáveis que parecem “copiados de livro”, pouco conectados à realidade da organização.
  • Excesso de detalhes cedo demais: se você não controlar quantidade, o escopo pode virar um checklist gigante de micro-itens.
  • Viés do prompt: se as perguntas forem vagas, as respostas também serão.

Como mitigar?

  • Sempre revisar com especialistas.
  • Ajustar os prompts para focar em entregáveis de alto nível.
  • Usar limites claros de quantidade por rodada.
  • Deixar explícito que esse é um rascunho para validação, não o escopo final.

Conclusão: IA como motor de arranque do escopo

Definir escopo continua sendo uma atividade humana, estratégica e política.
Mas a forma de chegar até lá pode ser muito mais rápida e estruturada se você:

  • combinar vários LLMs,
  • organizar o processo em Generate → Unify → Improve,
  • limitar o crescimento por rodada,
  • e sempre trazer o resultado de volta para a mesa de discussão com o time.

No fim das contas, a grande vantagem é esta:

Você deixa de gastar energia para “inventar” o escopo do zero
e passa a gastar energia para decidir e negociar em cima de uma base já estruturada.

Sobre Hayala Curto

Sobre o Colunista: Hayala Curto, CEO da NetProject. Doutorando em Informática, Mestre em Informática e Graduado em Ciência da Computação pela PUC-MG. MBA em Gerência de Projetos e MBA em Gestão Empresarial pela FGV.
Tem mais de 20 anos de experiência profissional, coordenando projetos de TI e implantando Escritórios de Projetos em clientes de diversos portes e segmentos. Participou da abertura de 3 empresas. A primeira faliu, a segunda foi vendida e atualmente trabalha como CEO na terceira.
É certificado PMP desde 2005, PMI-SP e PMI-RMP, pelo PMI. Também é certificado IPMA-C, Prince2 e CSM. Apaixonado por Gerenciamento de Projetos, atua como docente na área, em cursos de pós-graduação/MBA, desde 2009.