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Definir escopo é, muitas vezes, o momento mais sensível de um projeto.
É quando alguém faz a pergunta difícil:
“Afinal, o que exatamente esse projeto vai entregar — e o que ele não vai entregar?”
Na prática, é comum acontecer:
- documentos iniciais soltos (um e-mail, um slide, um relato verbal);
- visões diferentes entre patrocinadores, usuários e times técnicos;
- uma tendência a “abraçar o mundo” e colocar tudo dentro do projeto.
É aqui que modelos de linguagem (LLMs) podem ajudar — não para decidir o escopo sozinhos, mas para acelerar a construção de um baseline inicial bem estruturado, que depois será negociado e validado pelas pessoas envolvidas.
E dá para ir além de “perguntar qualquer coisa” para um único modelo.
Usando múltiplos LLMs em um fluxo organizado, você pode simular algo parecido com uma mesa de especialistas: cada modelo enxerga o problema por um ângulo diferente, e você usa um processo para juntar, limpar e melhorar essas contribuições.

Por que usar IA logo na definição de escopo?
Logo no começo do projeto, você costuma ter:
- pouca informação estruturada,
- muitas opiniões difusas,
- pressão por prazo e orçamento.
Usar LLMs nesse momento ajuda a:
- Evitar a página em branco
Em vez de começar do zero, você parte de uma primeira proposta de escopo já organizada em tópicos. - Ampliar o olhar sobre o projeto
Vários modelos em paralelo lembram de entregáveis, riscos e limites que talvez não tivessem aparecido numa primeira reunião. - Estruturar melhor as discussões
Você entra no workshop com um rascunho de escopo, e a conversa passa a ser:
“O que aqui faz sentido?” em vez de “Por onde começamos?”.
A ideia central: um pipeline em 3 passos (Generate → Unify → Improve)
Em vez de usar um único modelo de forma solta, você pode montar um fluxo simples, em três etapas, para trabalhar escopo de projeto:
- Generate – gerar ideias de escopo
- Unify – consolidar e organizar
- Improve – melhorar a qualidade dos itens
E isso pode rodar em 1 ou 2 rodadas, com controle de crescimento, para não transformar o escopo em uma lista infinita.
Passo 1 – Preparar o contexto do projeto
Tudo começa com um contexto mínimo bem montado.
Você pode juntar:
- objetivo geral do projeto;
- problema/oportunidade que se quer resolver;
- principais entregas esperadas (se já existirem);
- restrições (prazo, orçamento, tecnologia, legislação);
- premissas (o que você está assumindo como verdade);
- principais stakeholders.
Esse “pacote” vira o insumo para os modelos.
👉 Dica prática: tente escrever esse contexto em linguagem clara, direta, como se estivesse explicando o projeto para alguém de fora.
Passo 2 – Generate: deixar os modelos sugerirem o escopo
Aqui entra o “multi-LLM”.
Você pede para dois ou três modelos diferentes responderem, de forma independente, algo como:
“Com base nesse contexto, liste até 20 entregáveis de alto nível deste projeto.
Para cada item, inclua:
- uma breve descrição,
- um critério simples de aceitação (como saber que está pronto).
Não descreva atividades, mas sim resultados entregues.”
Cada modelo vai devolver uma lista de entregáveis e, muitas vezes:
- alguns itens vão se repetir com nomes diferentes;
- alguns serão muito parecidos;
- outros serão exclusivos de um modelo (e talvez muito bons).
Você não quer usar tudo “no automático” — a graça está na diversidade, para depois consolidar.
Passo 3 – Controlar o tamanho (para o escopo não explodir)
É aqui que o processo faz diferença.
Antes de rodar os prompts, você define um tamanho alvo:
- por exemplo: “Quero uns 15–25 entregáveis de alto nível”.
Se cada modelo gera até 20 itens, e você usa 3 modelos, pode acabar com 50+ linhas.
Então você já planeja que, depois da consolidação, querem sobrar só aqueles que realmente fazem sentido para o baseline inicial.
Essa ideia de limitar quantidade por rodada ajuda a:
- evitar escopo inflado demais;
- forçar priorização e agrupamento;
- manter o artefato utilizável.
Passo 4 – Unify: consolidar entregáveis e limpar o escopo
Agora você junta todas as listas em um só lugar (planilha, documento, ferramenta de IA) e coloca um prompt de consolidação, por exemplo:
“Você receberá várias listas de entregáveis de projeto.
Sua tarefa é:
- agrupar entregáveis equivalentes,
- eliminar duplicatas,
- propor um único nome claro para cada grupo,
- remover itens que sejam claramente atividades e não entregas,
- devolver no máximo 25 itens, priorizando relevância para os objetivos do projeto.”
O resultado tende a ser uma lista bem mais enxuta, organizada e consistente.
Você já pode começar a reconhecer:
- entregáveis que formam os principais blocos da WBS;
- entregáveis redundantes (que podem ser fundidos);
- itens que parecem deslocados do objetivo do projeto.
Passo 5 – Improve: transformar rascunho em baseline inicial
Depois da consolidação, entra o terceiro tipo de prompt, focado em qualidade:
“Pegue esta lista de entregáveis e:
- reescreva cada item em formato claro e objetivo,
- garanta que descreva um resultado entregue, não uma atividade,
- inclua 1 critério de aceitação mensurável,
- indique se o item é ‘dentro do escopo’ ou ‘fora do escopo’ (quando ficar claro que é exclusão).”
Aqui você pode pedir também:
- identificação de premissas associadas (por exemplo, “desde que a área X forneça tais dados”);
- sugestão de restrições importantes (normas técnicas, prazos legais, etc.);
- proposta de uma pequena seção de “fora do escopo” para deixar explícito o que este projeto não fará.
Ao final, você terá algo muito próximo de:
- um Project Scope Statement inicial,
- ou uma WBS nível 1–2 em texto,
pronto para ir para um quadro, uma reunião, um documento formal.
Quantas rodadas são necessárias?
Na maioria dos casos, uma rodada bem feita (Generate → Unify → Improve) já gera um material muito melhor do que começar do zero.
Uma segunda rodada pode ser usada para:
- aprofundar algum bloco específico do escopo (ex.: “detalhar só o escopo de treinamento”);
- integrar feedback de stakeholders:
“Com base nos comentários da reunião, ajuste e refine os entregáveis a seguir…”
Rodadas adicionais só costumam valer a pena se:
- o projeto é muito complexo ou regulado;
- ou se você está usando esse processo como base para um estudo mais formal.
Papel das pessoas nesse processo (importantíssimo!)
Mesmo com toda a inteligência dos modelos, o papel humano continua central:
- Patrocinador e equipe avaliam se o escopo proposto faz sentido estratégico.
- Especialistas do domínio ajustam detalhes técnicos, limites e dependências.
- PMO ou gerente de projeto garante que o escopo esteja coerente com prazo, custo e riscos.
A IA entra como:
- acelerador,
- gerador de alternativas,
- ferramenta de brainstorming estruturado.
Não como substituto da decisão.
Um mini-exemplo para visualizar
Suponha um projeto de implantação de uma nova plataforma de atendimento ao cliente.
Depois de seguir esse fluxo, seu baseline inicial de escopo poderia ter entregáveis como:
- Plataforma de atendimento configurada e integrada aos sistemas legados
- Critério de aceitação: principais fluxos (abertura de chamado, consulta de status, histórico do cliente) funcionando em ambiente de produção.
- Base de conhecimento inicial publicada
- Critério de aceitação: pelo menos 100 artigos revisados e aprovados, cobrindo os 20 tipos de chamados mais frequentes.
- Equipe treinada na nova plataforma
- Critério de aceitação: 90% dos atendentes aprovados em avaliação prática simulada.
- Indicadores de atendimento configurados e disponíveis em dashboards
- Critério de aceitação: dashboards com indicadores de SLA, NPS e tempo médio de atendimento atualizados diariamente.
E, na parte de fora do escopo, algo como:
- Migração completa de todos os sistemas legados para uma nova arquitetura;
- Redesenho de toda a jornada do cliente em canais físicos.
Isso já dá um mapa muito mais claro para planejar prazo, custos e riscos.
Riscos e cuidados ao usar IA para escopo
Alguns pontos de atenção:
- Escopo genérico demais: modelos podem sugerir entregáveis que parecem “copiados de livro”, pouco conectados à realidade da organização.
- Excesso de detalhes cedo demais: se você não controlar quantidade, o escopo pode virar um checklist gigante de micro-itens.
- Viés do prompt: se as perguntas forem vagas, as respostas também serão.
Como mitigar?
- Sempre revisar com especialistas.
- Ajustar os prompts para focar em entregáveis de alto nível.
- Usar limites claros de quantidade por rodada.
- Deixar explícito que esse é um rascunho para validação, não o escopo final.
Conclusão: IA como motor de arranque do escopo
Definir escopo continua sendo uma atividade humana, estratégica e política.
Mas a forma de chegar até lá pode ser muito mais rápida e estruturada se você:
- combinar vários LLMs,
- organizar o processo em Generate → Unify → Improve,
- limitar o crescimento por rodada,
- e sempre trazer o resultado de volta para a mesa de discussão com o time.
No fim das contas, a grande vantagem é esta:
Você deixa de gastar energia para “inventar” o escopo do zero
e passa a gastar energia para decidir e negociar em cima de uma base já estruturada.